Situado no último andar da mais alta torre do mosteiro,o quarto do abade Luigi ocupava um lugar estratégico.A escolha do aposento não fora sem motivo,pois o prudente superior fazia questão de ter uma boa visão do mosteiro entregue pela Providência aos seus cuidados.
Naquela manhã,ao olhar pelas janelas,dois monges lhe chamaram a atenção.O primeiro foi Irmão Bartolomeu,o qual,subindo a trilha,voltava da cidade arfando sob o peso de duas grandes sacolas repletas de víveres por ele recebidos na feira da cidade.
Esse bom frade era homem simples,de pouca instrução,mas muito piedoso e dedicado.Conseguia os mantimentos e ele mesmo os preparava,procurando,até onde permitia a pobreza franciscana,servir aos monges a melhor alimentação possível.
Da outra janela,o abade avistava o claustro.Sentado em um banco de pedra,estava o segundo monge alvo de suas atenções.Tendo alguns livros empilhados à sua volta.Frei Lucrécio lia entusiasmado um grosso volume de apologética.Era ele quem ministrava as aulas aos jovens noviços, e sua segurança em matéria doutrinária lhe granjeara fama nas redondezas, a tal ponto que tanto leigos como religiosos vinham consultá-lo sobre intricados pontos dos ensinamentos cristãos.
Observando os dois monges,o velho abade pôs-se a meditar na grandeza de Deus,que criava homens tão diferentes,mas os fazia viver sob o mesmo teto,irmanados pela mesma vocação,e chamados a servir a seus semelhantes de maneiras diversas.No meio daquela tarde,alguém subiu os degraus da torre e bateu à porta do quarto do abade.Era Frei Lucrécio.Com um livro debaixo do braço,pedia uma conversa reservada com seu superior.
_Pois não,irmão.Algumas dificuldade o aflige?
_Não a mim,senhor abade,mas à nossa comunidade.Desculpe-me,mas não posso mais suportar o fato de haver entre nós uma pessoa tão desqualificada como esse...esse Irmão Bartolomeu!
O abade Luigi levantou as sobrancelhas,um pouco surpreso.Que mal teria feito o humilde monge?E Frei Lucrécio continuou,dando argumentos para demostrar como aquele homem tão ignorante causava malefício à comunidade:
_Ele simplifica tudo!Nunca consegue acompanhar os elevados raciocínios que eu,mestre em teologia,procuro transmitir.Ademais,tem costumes estranhos,como,por exemplo,na ocasião em que tentou ensinar um papagaio a rezar a Ave Maria...
O abade ouviu,com ar perplexo e sem dizer palavra,o monge apresentar um relato detalhado de tudo o que ele diz e faz.Fique atento a qualquer atitude na qual ele demostre essa suposta mediocridade,ou ignorância,por você mencionada.Em função disso,tomaremos uma atitude.
E assim foi.No fim da tarde,o mestre de teologiase apresentou na cozinha,para ajudar o irmão cozinheiro.Como este nunca discutia uma ordem superior,nadaperguntou a respeito.Justo naquela noite,o prato da ceia seria talharim com molho ragu.O douto monge observava com atenção tudo quanto o outro fazia.Além de carne moída,havia vários ingredientes que lhe pareciam bem saborosos,como,por exemplo,cebola,toucinho e tomate,este último por ele especialmente apreciado.Quando,porém,Frei Bartolomeu começou a cortar as cenouras,Frei Lucrécio protestou:
_Como?A tantas delícias,você vai acrescentar essas míseras cenouras?Esse vegetal mesquinho vai alterar completamente o gosto do molho!
_Mas...mas...eu sempre fiz assim!-disse o pobre cozinheiro.
_Pois bem,se quiser,sirva isso para os outros.Para mim,separe uma parte do molho,sem essas pérfidas cenouras.
Enquanto isso,Frei Lucrécio pensava consigo mesmo:"Aqui está,sem dúvida,uma prova da ignorância desse homem,pois em tudo o que ele faz procura acrescentar uma nota de mau gosto,como essa história das cenouras.Amanhã vou contar isso ao abade".
Na hora do jantar todos comeram a pasta com o ragu convencional,exceto Frei Lucrécio,a quem foi servida a parte sem cenouras.Para sua surpresa,o preparado estava horrívelmente ácido,a tal ponto que ele com dificuldade pôde terminar o prato.Como,porém,havia sido uma exigência sua,ele tudo comeu sem nada reclamar...
Aquela não foi uma boa noite.O molho definitivamente não lhe caiu bem.Ele não conseguiu dormir direito,teve pesadelos e acordou várias vezes com enjôo.na manhã seguinte,pálido e com olheiras,foi falar com o abade para apresentar seu relato.Este se impressionou com o aspecto doentio do douto mestre,o qual então lge contou o ocorrido com o molho ácido, causa de seu mal-estar.
O experiente abade, sorrindo, lhe disse:
_Sabe, Irmão Lucrécio, quando fui noviço, trabalhei um bom tempo na cozinha. Aliás, fui eu que pedi a Frei Bartolomeu para fazer ragu ontem. È bem interessante como a culinária, em certas ocasiões, apresenta exemplos úteis á vida religiosa. Na verdade, compor uma boa comunidade muitas vezes é como preparar uma boa receita: exige a sábia combinação de vários ingredientes. Veja o tomate: tem um sabor todo especial e é um dos elementos centrais do molho,mas facilmente se torna ácido; por isso é necessário colocar junto dele a humilde cenoura, cuja função nessa receita não é dar sabor, mas justamente absorver a acidez do conjuto.
Irmão Lucrécio, acredito que esteja compreendendo bem esta comparação, mas quero deixá-la mais clara. Assim como o cozinheiro na preparação da receita, também eu, na função de abade, devo cuidar de monges que me são preciosos por sua sabedoria e doutrina embora sejam por vezes "ácidos" E para isso, me ajuda dispor também de outros que não têm muita proeminência, mas, por sua simplicidade, agem como as cenouras no molho ragu: suavizam o conjunto. Entede agora, irmão porque me alegra poder ter você e Frei Bartolomeu juntos em nossa comunidade?
Frei Lucrécio aceitou com humildade as palavras de seu virtuoso abade. Reconfortado, agradeceu o ensinamento e, após a benção, se dispôs a sair. Quando estava já a porta, ele ainda lhe disse:
_Ah,um detalhe a mais, irmão: o molho ficou ácido também por não ter cozido durante o tempo suficiente; na culinária como na vida cristã,a paciência é uma virtude fundamental para que tanto o alimento quanto o convívio tenham sabor suave e agradavel...
Texto retirado da Revista "Arautos do Evangelho"-Numero 65,Maio 2007



Já falei pra galera,quero um autógrafo,rsrsrsrsrsrsrs





